augusto_dos_anjos

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Augusto dos Anjos

Não sei por que esse poema me veio a mente agora.

Lembro-me de tê-lo lido a primeira vez no colegial. Naquela época eu não dei muita atenção às palavras, mas agora elas me parecem mais duras e diretas. Essas palavras me parecem traduzir toda a fragilidade e insignificância da natureza humana, na sua forma mais visceral.

“…Filho do Carbono e do Amoníaco…”

Incrível como ele faz um contraste entre essa duas palavras que expressam ao mesmo tempo a vida e a morte, a pureza e a poluição.

Mesmo tendo nascido em 1884, as palavras do paraibano Augusto dos Anjos parecem atemporais. Aliás, parecem mais modernas no nunca.

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